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Carta Aberta do Sindicato dos Farmacêuticos da Bahia sobre uso de medicamentos no tratamento da Covid-19

27/07/2020
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HIDROXICLOROQUINA, IVERMECTINA E OUTROS MEDICAMENTOS NÃO DEVEM SER USADOS PARA TRATAMENTO OU PROFILAXIA DE COVID-19 SEM COMPROVAÇÃO DE EFICÁCIA E SEGURANÇA CLÍNICA

Em meio a pandemia do novo coronavírus, estão sendo veiculadas notícias falsas atribuindo a alguns medicamentos propriedades de cura ou de prevenção da Covid-19, sem que tais efeitos sejam verdadeiros ou tenham sido confirmados por estudos. Lamentavelmente, essas fakenews também são disseminados por alguns médicos e gestores públicos. Para piorar, políticos sem formação em saúde, fazem campanhas induzindo o uso irracional desses medicamentos, com riscos desnecessários para a saúde e com pouca ou nenhuma chance de que irão funcionar ou trazer qualquer benefício.

A Hidroxicloroquina/Cloroquina, Ivermectina, Azitromicina, Nitaxozanida entre outras ou já mostraram que não funcionam ou ainda não possuem nenhuma comprovação de que possam tratar, muito menos prevenir, a infeção pelo Coronavírus. Além disso, o que é pior, podem causar efeitos indesejáveis, que pode, ser graves e ainda fatais, ocasionando mortes.

Muitos desses medicamentos estão em fase de estudos na COVID-19, sendo testados em participantes de pesquisas, a fim de saber minimamente se funcionam, em qual dosagem e quais os efeitos prejudiciais, e, se há realmente benefício e se o risco compensa. Somente depois ‘passar nesse teste’ e se ter conhecimento de como devem prescrever, administrar e acompanhar os resultados, é que os medicamentos podem ser colocados à disposição da população.

Prescrever, recomendar ou fazer publicidade de medicamentos sem comprovação de que estes funcionam e são seguros, ou baseando-se somente em testes de laboratório (in vitro), coloca em grande risco a saúde e a
vida da população e representa um atentado à saúde pública. Caso essas práticas, bem como a aquisição de medicamento ineficazes, estejam sendo feita por prefeitos, secretários de saúde ou outros agentes públicos, tais conduta são ilegais, proibidas por Leis, contrárias a Constituição Federal e pode gerar responsabilização por improbidade administrativa, além de ações por infração sanitária ou penal (Lei 8080/1990, Lei 12.401/2011, Lei 13.979/2020 Decreto 7508/2011, CF88, art.37).

No momento, as medidas que com certeza funcionam no combate ao novo coronavírus são a testagem e identificação precoce dos infectados, isolamento e monitoramento destes e disponibilização de boa estrutura hospitalar agravados e a proteção dos trabalhadores de saúde (essenciais). Essas medidas tem funcionado em diversos lugares do mundo e, como os recursos são escassos devido à crise econômica na pandemia, temos que concentra-los no que funciona e não desperdiçar em medidas duvidosas e irracionais. O uso irracional de Hidroxicloroquina, (aprovada contra malária e doenças autoimunes) e da Ivermectina (aprovada contra piolho e algumas verminoses) são muito preocupantes. Seis estudos rigorosos (Ensaios Clínicos Randomizados) concluíram que a Hidroxicloroquina não traz benefício em nenhuma fase da infecção do COVID-19, e pode causar arritmias, parada cardíaca e mortes. Com esses resultados, muitos órgãos de saúde e entidades científicas recomendam não usar o medicamento, a exemplo dos Hospitais Sírio Libanês, Albert Einstein, Instituto Couto Maia, da Soc. Bras. de Infectologia, Soc. Bras. para o Progresso da Ciência, do Conselho Nacional de Saúde, dentre outros. A Organização Mundial da Saúde removeu esse medicamento até das suas pesquisas. Por sua vez, a Ivermectina, também não tem eficácia comprovada, mas começou a ‘viralizar’ irracionalmente após uma notícia falsa de cura da Covid-19, com base num teste de laboratório, em que o vírus foi eliminado nas células de um ‘tubo de vidro’ com uma quantidade excessiva de ivermectina, que é 17 vezes maior da dose máxima permitida em humanos e, portanto, tóxica. Resultados de laboratório (in vitro) nunca devem ser extrapolados porque podem não ocorrer em humanos. Além disso, entre outros efeitos prejudiciais, a Ivermectina é neurotóxica. Pode lesionar os nervos e cérebro, se houver alteração da barreira hematoencefálica. O que pode ocorrer na COVID-19, por causa do estado hiper inflamatório que essa doença causa. Infelizmente, ao arrepio da ciência e da lei, alguns políticos, profissionais e agendes públicos continuam recomendando medicamentos sem eficácia e segurança clínica comprovada.

Durante pandemia, a angustia das pessoas não pode ser explorada por meio de falsas expectativas em medicamentos que não funcionam comprovadamente contra a COVID-19 e que podem prejudicar à saúde. Os medicamentos também não devem ser usados para causar falsa sensação de ‘proteção’, porque além de antiético, isso pode comprometer o isolamento social e provocar aglomerações, minando todos os esforços empreendidos e comprovadamente eficazes para reduzir a transmissão do novo coronavírus. Com base nos dados científicos e legislação, recomendamos:

1. Que a Hidroxicloroquina/Cloroquina, a Ivermectina, a Azitromicina, a Nitazoxanida, e outros medicamentos, não sejam usados para tratamento ou profilaxia de covid-19 sem comprovação de eficácia e segurança clínica, exceto em pesquisa devidamente aprovada por Comitê de Etica;

2. Que os gestores públicos, municipais, estaduais e do Ministério da Saúde, reavaliem suas orientações de tratamento restringindo-as, bem como o dispêndio do erário público, àquelas comprovadamente eficazes e seguras, como determina as leis vigentes e a Constituição Federal;

3. Que os recursos públicos sejam concentrados em medidas cientificamente eficazes de combate ao novo coronavírus dentre as quais a testagem e identificação precoce dos infectados, o isolamento e monitoramento destes, o distanciamento social da população, a disponibilização de boa estrutura hospitalar aos agravados, a proteção dos trabalhadores de saúde.

Salvador, 20 de julho de 2020
Sindicato dos Farmacêuticos do Estado da Bahia

Nota Técnica em www.bit.ly/nt-sfba-covid 
 
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